Armazenamento de energia solar: como funcionam gigabaterias

Usina solar só gera de dia, e o consumo de energia costuma bater o pico no começo da noite. A saída que está ganhando escala no mundo é guardar parte da energia do meio-dia em grandes baterias ligadas à rede e soltar depois que o sol se põe. Veja como esses sistemas funcionam, o que já existe de verdade e o que o Brasil está fazendo.

O problema: sol demais ao meio-dia, de menos à noite

A geração solar sobe de manhã, chega ao máximo perto do meio-dia e cai a zero no fim da tarde. Quando há mais energia do que a rede consegue usar, o operador manda as usinas reduzirem a produção. Esse corte se chama curtailment e já acontece no Brasil, principalmente no Nordeste. Ao mesmo tempo, à noite, a rede precisa de outras fontes, como hidrelétricas e termelétricas.

As baterias resolvem parte disso: carregam quando sobra energia e descarregam quando falta.

Como funcionam as baterias de rede (BESS)

BESS é a sigla em inglês para sistema de armazenamento de energia em baterias. Na prática, são contêineres cheios de módulos de bateria, com inversores, transformadores e sistema de refrigeração, instalados ao lado de uma usina ou de uma subestação.

  • Química mais usada: lítio-ferro-fosfato (LFP). Comparada às baterias de níquel e cobalto dos celulares, é mais barata, não usa cobalto e tem menor risco de superaquecimento, embora ainda exija sistema de proteção contra incêndio.
  • Duração típica: 2 a 4 horas de descarga na potência máxima. É o suficiente para cobrir o pico do começo da noite, não a madrugada inteira.
  • Controle: um software decide quando carregar e quando descarregar, conforme a previsão de geração, o preço da energia e as ordens do operador da rede.

Para períodos mais longos (10 horas ou dias), existem tecnologias em teste, como baterias de fluxo e de ferro-ar. A de ferro-ar, por exemplo, ainda está em fase de projetos-piloto nos EUA.

O que já existe: o projeto de Abu Dhabi

O exemplo mais citado hoje de energia solar “24 horas” é o projeto da Masdar com a EWEC, nos Emirados Árabes. Ele combina 5,2 GW de painéis solares com 19 GWh de baterias para entregar 1 GW constante, dia e noite. A construção começou em outubro de 2025, o financiamento de US$ 6,1 bilhões foi fechado em julho de 2026 e a previsão de operação é 2027. Ou seja: está em obras, ainda não funciona.

O número ajuda a entender o tamanho do desafio: para garantir 1 GW o tempo todo, o projeto precisa de cinco vezes essa potência em painéis e uma bateria enorme. Não é algo que qualquer usina solar faça.

E no Brasil?

O Ministério de Minas e Energia publicou em junho de 2026 a Portaria nº 136, com as regras dos primeiros leilões de baterias do país (Leilão de Reserva de Capacidade, LRCAP). Os pontos principais:

  • Dois leilões previstos para 2 e 4 de dezembro de 2026, um deles com exigência de conteúdo nacional.
  • Baterias novas, com no mínimo 30 MW por projeto e capacidade de descarregar por 4 horas seguidas na potência máxima.
  • Início do fornecimento em 1º de agosto de 2028, com contratos de 15 anos.
  • Eficiência mínima de 85% entre carregar e descarregar.

Ou seja, no Brasil as baterias de grande porte ainda estão na fase de contratação. As datas podem mudar até o leilão; vale acompanhar as publicações do MME e da Aneel.

Bateria substitui termelétrica?

Em parte. Baterias de 4 horas cobrem bem o pico do fim de tarde e ajudam a aproveitar a energia solar que seria cortada. Para longos períodos sem sol (vários dias nublados, por exemplo), a rede ainda depende de hidrelétricas, termelétricas e de outras fontes. O ganho real é reduzir o uso das termelétricas nos horários de pico, que costumam ser as mais caras.

O que muda para o consumidor

No curto prazo, nada na conta de luz. O efeito esperado é indireto: menos energia solar desperdiçada e menos acionamento de usinas caras no pico, o que tende a ajudar no custo do sistema ao longo dos anos. Para quem tem energia solar em casa, a bateria residencial é outro assunto: ainda é cara e costuma valer a pena só em casos específicos, como lugares com muita queda de energia.

Fonte: PV Tech — Masdar fecha financiamento do projeto 5,2 GW/19 GWh; Brasil BESS — análise da Portaria MME nº 136/2026; Ministério de Minas e Energia.

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Radar Hoje

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